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Roberto C M Santiago
Textos e reflexões
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ARLINDO SANTIAGO
(1909-2011)
 

Há pessoas que nascem para viver muito. Parecem que são eternas. O tempo passa e teimam em seguir vivendo até quando... Deus permitir. O meu tio-avô  Arlindo Santiago é uma delas. Viveu por quase 103 anos. Nasceu numa terça-feira de 25 de março de 1909, na fazenda Bonfim, próximo ao povoado de Lagoinha, zona rural de Salinas.

É filho de José Santiago (1873-1944) e Virgínia Celestina Santiago (1882-1965), patriarcas da família Santiago em Salinas. É irmão do meu avô Anísio Santiago (1912-2002), o produtor da famosa cachaça Havana. De uma família de doze irmãos, viva somente Oswaldina Santiago de Abreu, 95 anos, que atualmente mora em uma pequena cidade no interior da Flórida, Estados Unidos.

Tio Arlindo morava na fazenda Bonfim adquirida pele seu pai em 1903. Lembro bem da última vez que o vi na sua fazenda. Alegre, logo esticou uma prosa. Foi logo perguntando:

- Carlos, você fala inglês?
- Não tio, não falo! - Respondi.
- Sinto falta de alguém para praticar a língua inglesa. As minhas vistas estão cansadas para ler.  O jeito é praticar falando mesmo. Mesmo assim tá difícil - Fala resignado. 

Puxei assunto para os seus livros. Possui muitos guardados, em sua maioria adquiridos pelo seu pai.

- Tio Arlindo, soube que possui muitos livros. Poderia me mostrar?
- Uai Carlos, não sabia que gostava de livros antigos. Vem cá e lhe mostro - Responde levantando. 

Com dificuldade caminhou lentamente para um quarto ao lado da sala. O acompanhei com a curiosidade de um adolescente.  Ao adentrar me espanto com grande quantidade de livros antigos, alguns da época do império. Estavam amontoados em caixas e uns poucos jogados ao chão. O primeiro livro que peguei foi um sobre o Código Civil Brasileiro de 1916 em ótimo estado de conservação. A quantidade de livros me impressionou. Eram livros de literatura francesa, inglesa, medicina, direito, agrimensura, almanaques, enfim, livros de todos os tipos.

Proseando, tio Arlindo diz que a maioria foi adquirida pelo seu pai que sempre gostou de livros.

- O meu pai era pessoa culta para os padrões da época. Nascido em Diamantina estudou medicina por dois anos em Salvador, na Bahia - Fala olhando fixamente para algum ponto tentando relembrar fatos tão distantes.

- Ele desistiu do curso por causa da Guerra de Canudos. Por isso retornou para Minas, na cidade de Medina, onde ficou dois anos e casou-se com minha mãe Virgínia. Em 1898 mudou-se em definitivo para Salinas - Confidencia olhando fixamente para mim.

Tio Arlindo sempre morou na fazenda onde nasceu. Estudou no povoado de Lagoinha. Na década de 1920 fez curso de madureza (equivalente ao ginasial) na cidade de Araçuaí, distante mais de cem quilômetros de Salinas. Naquele tempo não existia automóvel. O percurso era feito em montaria de cavalo com amigos que também estudavam lá. Segundo ele a vida naquela época era difícil para todos, mas eram felizes. Por muitos anos foi professor e dono de um armazém no povoado de Lagoinha. Atualmente está aposentado. Casou duas vezes e teve mais de dez filhos.

Percebe-se em suas conversas que era de outro mundo, de outra época. Falou com riqueza de detalhes como foi o povoamento da região de Salinas no século XIX e início do século XX, dos donos das primeiras fazendas, dos migrantes da Bahia que sempre aportavam na região em busca de um bom lugar para viver, longe da seca do sertão baiano.

A visita ao tio Arlindo foi muito proveitosa. Fui presenteado com alguns livros antigos que guardo com carinho em minha residência. Não dou nem empresto a ninguém. Afinal, fui agraciado com um Código Civil de 1916, um dicionário de língua alemã do século XIX, um livro de agrimensura de 1907, um livro de gramática francesa de 1952, um livro de literatura francesa de 1899 intitulado “Chateabriand”, um livro de discursos de 1893 e um dicionário de português-francês de 1869. Esse dicionário é interessante pois foi comprado pelo meu bisavô José Santiago por 19.200 réis. Aliás, todos os livros foram adquiridos pelo meu bisavô, exceto o de gramática francesa de 1952, este adquirido pelo próprio tio Arlindo.

Nem precisa dizer que os livros são interessantíssimos. Mas, tem mais. Na maioria dos livros constam inúmeras anotações, recados, cartões, cartas e algumas notas antigas de dinheiro. Foi numa dessas anotações que descobri a data de nascimento e casamento do meu bisavô José Santiago. Uma informação valiosa contida em livros que hoje são raros pela sua antiguidade.

Ah, tio Arlindo. Os seus quase 103 anos de vida representaram um estilo de vida rural que vem sendo apagado pela modernidade que nos escraviza no tempo e no espaço. Feliz foi o senhor que viveu serenamente, mineiramente apreciou  o cotidiano, observou a vida passar diante do seu olhar por mais de um século. Que Deus o tenha em bom lugar no céu.

Arlindo Santiago faleceu no dia 4 de outubro de 2011, próximo de completar 103 anos de vida. Encontra-se sepultado no singelo cemitério do povoado de Lagoinha onde nasceu e viveu. Foi uma pessoa singular. Merece ser reverenciado.
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Texto de:
Roberto Carlos Morais Santiago
Enviado por Roberto Carlos Morais Santiago em 25/05/2011
Alterado em 25/08/2013
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HAVANINHA
A saga de Anísio Santiago continua!